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"Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis."
Brecht
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Deseducação: Anastasia dirige Minas na contramão

Após heróicos 112 dias de greve em defesa do ensino público, de salários e direitos, os trabalhadores em educação de Minas Gerais, liderados pelo Sind-UTE, estamparam para o país uma triste realidade: o Estado está sendo dirigido na contramão por um governador que desrespeita as mais elementares regras de educação e boa conduta.
Como os cães, bombas e cassetes fartamente utilizados contra os manifestantes evidenciaram, Antonio Anastasia representa hoje a reencarnação tucana de Washington Luís, para quem a questão social era caso de polícia. Em vez de diálogo, porrete. Na versão moderna: sprays de pimenta.
Diante da intransigência, da truculência e da falsidade, uma vez que o governador insiste em descumprir o acordo firmado para a resolução do problema funcional e salarial que pôs fim à greve, nos vemos novamente diante de um impasse. Anastasia não quer negociação, mas capitulação. Anastasia não quer investimentos em educação, mas enganação. Anastasia não quer um Estado público, mas uma administração privatizada – e policial.
As cartas estão na mesa. Há uma disputa de projeto na qual as reivindicações dos trabalhadores em educação se coloca como o principal empecilho para que o atual desgoverno alcance seus objetivos. Acostumado com o aplauso dos marionetes e o silêncio dos que foram cooptados econômica e ideologicamente, se insurge contra quem não dobra a espinha, contra milhares de mulheres e homens, jovens e aposentados, que insistem em honrar sua tradição e história. Vem daí o seu ódio. E o seu medo. Por isso tenta quebrar uma tradição de autonomia e independência que existe desde a criação da União dos Trabalhadores do Ensino (UTE), que hoje é o Sind-UTE, fundado em 1979 à revelia do Estado e do regime ditatorial. Por isso tenta calar a voz do contraditório, como se o cenário construído com base em rios de dinheiro público injetados em campanhas publicitárias nos meios de comunicação reconstruísse a realidade. Ledo engano.
Não há em Minas Gerais uma política para alcançar a qualidade na educação pública, mas de se atentar contra ela. Por isso faz com que a sua mídia foque as câmeras num número insignificante de estabelecimentos de ensino, enquanto desprezam as cerca de quatro mil escolas estaduais.
Utilizando dinheiro do contribuinte, tenta abafar as denúncias do choque de gestão e do déficit zero que quebrou Minas. Ao instituir o regime de subsídio, destrói a carreira dos trabalhadores em educação, se contrapondo mais uma vez a ações que poderiam elevar a qualidade do ensino público com o Piso Salarial Nacional.
O fato é que o governo tucano não honrou o acordo para pôr fim à greve e agora a categoria vai para mais de quatro meses sem salário por conta deste descumprimento. Também os eletricitários, dirigidos pelo Sindieletro-MG, estão realizando manifestações de advertência, diante da enrolação que virou a marca da administração tucana. Sem solução, os problemas permanecem. Não vão desaparecer por conta de anúncios, por mais páginas que ocupem nos jornais, por mais tempo que tomem dos noticiários de rádio e televisão.
Agora, em vez de sentar e negociar, Anastasia retoma e intensifica sua campanha de mídia para tentar desqualificar o Sindicato, vinculando nossa paralisação como greve “política”, subentendida pela perniciosa desinformação como “partidária”. Nada mais falso. A amplitude do nosso movimento expõe o sectarismo do governo, o envolvimento do conjunto dos trabalhadores em educação assinala maturidade, que é fruto do acúmulo de vivências, mas, sobretudo, de sólidos compromissos com a sociedade mineira.
Por isso denunciamos o desinvestimento e a desvalorização do magistério. Por isso levantamos as nossas vozes e expomos o ridículo dos nossos contracheques, a precariedade das nossas escolas, a insegurança, a involução da carreira. Não inventamos nada. Não montamos cenários. Mostramos a realidade como ela é, contando com o inestimável apoio de inúmeros diretores que, agora, por terem ousado desnudar a farsa, também são vítimas de perseguição governamental. Covarde, Anastasia orientou que as superintendências entrem com processo administrativo contra os diretores, na ânsia de quebrar a estrutura organizativa do sindicato. Outra determinação governamental é que todo o material do Sindicato utilizado nas escolas seja recolhido e impedida até mesmo a colocação de comunicados e a realização de reuniões da entidade.
Num arroubo fascista, está pervertendo todas as estruturas do Estado, com tropas de choque no executivo, legislativo e judiciário, incluindo a sua reconhecida versão militar e midiática para aplicar seu programa de desmonte.
Está cavando cada vez mais fundo e o cheiro começa a empestear. O povo mineiro jamais perdoará seus silvérios dos reis.

Por: José Celestino Lourenço 
Fonte: http://www.cut.org.br/ponto-de-vista/artigos/4591/deseducacao-anastasia-dirige-minas-na-contramao


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Com amor se paga?

Há palavras vulgares e há palavras comuns. Coincidem, às vezes. “Porra”, por exemplo, não se diz na missa, mas é inevitável quando cai pela terceira vez aquela ligação 0800 após uma longa espera para ser atendido. Há outras que, embora de uso corrente, têm sentido sublime e, porque são sublimes, vulgarizam-se facilmente pelo uso comum. Preciosas, mereciam ser mais poupadas, como fazem com elas os mais sensatos.
A palavra “Amor” talvez seja a mais castigada de todas elas. Fácil de pronunciar, muita responsabilidade atribui a quem o sente. Tão distante está de ser compreendida, embora nos habite tão intimamente o seu mistério. Outro dia, ouvi o governador Cid Gomes falar de amor. Chamou minha atenção porque é raro observar esta palavra na fala de um político. Muito raramente mesmo encontram lugar para ela em seu discurso.
Por mais elástica sua capacidade de adulterar o sentido das coisas quando falam, os políticos parecem tomados de um inusitado pudor quando a evitam, o que é sensato: não parece mesmo verossímil na boca deles. A palavra “amor”, o governador usou da pior maneira: para humilhar as pessoas – educadores, no caso. Nada mais paradoxal do que o esforço de conciliar humilhação e amor na mesma oração.
Para justificar as compensações precárias que seu governo está podendo oferecer no momento aos professores em greve – eis o contexto – ele disse que quem entra no serviço público não o faz por dinheiro, mas por amor. Ora, homem, nos poupe do seu evangelho de ocasião! É evidente que nenhum professor desprovido de vocação, amor pela missão que abraçou, pode mesmo formar uma geração de bons cidadãos.
Mas é imprescindível à verdade mais rasa acrescentar ao que você falou um detalhe que muda de tal maneira a qualidade do que disse que melhor seria se tivesse evitado se expor assim, pilhado numa sandice. É que, para servir com a devoção que você cobra, os educadores, além de amor, precisam ir às salas de aula com a tranquilidade de ter deixado em casa os filhos alimentados e bem vestidos. Afinal, isso também é amor.
Os educadores não estão exigindo viajar em jatinhos particulares com a família para servir ao Estado como devem. Querem apenas ser remunerados de modo compatível com a relevância do serviço que prestam. Não se pode exigir, em nome do amor, que as pessoas abdiquem do necessário. A mais generosa impressão que se pode ter do que você disse é que a sua experiência pessoal com este sentimento é imatura e superficial.
Por que não te calas? Há quem colabore mais com outros recursos, que não a palavra. Pelo visto, seu ramo é outro. Faça o melhor que sabe nas condições que pode, mas evite expor em demasia a natureza confusa dos seus valores.

* Ricardo Alcântara,
Poeta e publicitário.
Fonte: Blog "O Povo"
http://blog.opovo.com.br/blogdoeliomar/em-nome-do-amor-apoio-aos-professores-grevistas/#.TmTsOl-ZHhs.twitter

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Uma greve histórica!


Foi no mínimo emocionante o que aconteceu hoje na Assembleia estadual dos Trabalhadores em Educação. Que esta é uma greve histórica, todos já sabemos. A própria imprensa já reconhece, pela duração e pela dimensão do movimento, que essa é uma greve diferente. 

Após resistir a todos os ataques do governo de Minas, os educadores da rede estadual aglutinaram forças. A grande mobilização de hoje deixou claro que essa não é uma luta apenas dos professores, mas de toda a sociedade mineira que quer um basta nesse governo que tanto mal tem feito a família mineira. Que não investe em educação e nos demais serviços públicos essenciais. Um governo que vive de marketing e maquiagem.

Se a greve já estava forte, hoje ficou maior. Estiveram presentes na Assembleia centenas de estudantes secundaristas e universitários. Os estudantes da PUC MINAS (direito, história, filosofia, ciências sociais, e outros), da UFMG (FAE, FAFICH, FALE, direito e outros), bem como, professores e técnicos adminstrativos dessa universidade marcaram presença no grande ato em defesa da educação. Vários movimentos sociais como: MST, Via Campesina, Movimento dos Atingidos por Barragens e vários outros também foram prestar sua solidariedade aos educadores. Sindicados de várias categorias profissionais marcaram presença e ofereceram apoio e suporte a greve da educação. 


Pela primeira vez Minas assistiu um pacto dos diversos segmentos da sociedade pela Educação. Todos esses segmentos estiveram ali imbuidos do espírito de solidariedade e reconhecendo o valor social da educação e dos educadores. Tal apoio pode ser sintetizado nas frase que todos carregavam no peito ou em faixas: "mexeu com os professores, mexeu comigo". 

Esperamos que toda a sociedade reconheça que a luta dos professores não é apenas deles, mas, de todos que acreditam em futuro melhor e mais justo, o que só será possível através da educação da classe trabalhadora. Não qualquer educação, mas uma educação que seja de qualidade.

Por: Adriano de Paula

Clique aqui e leia o manifesto de apoio dos estudantes da PUC-MG (leia o verso aqui)e dos professores da FAE/UFMG




domingo, 21 de agosto de 2011

Professores: Uma greve esquecida - Por Saul Leblon, no sítio Carta Maior - PARTE 1


Às missões essenciais destinam-se os melhores recursos. Não importa quais sejam elas, serão sempre eles: os mais eficazes, mais qualificados, os que desfrutam de maior respeito e como tal são valorizados e reconhecidos.
O Brasil precisa decidir se educar a sua infância se enquadra entre as essencialidades do Estado e da sociedade. Se assim entender, terá que repensar o tratamento dispensado a um protagonista que ocupa a linha de frente desse processo: o professor de um modo geral, mas, sobretudo, o do ensino básico. 
Em meio à voltagem desordenada dos mercados financeiros mundiais nas últimas semanas, o país assistiu dia 16 de agosto, quase indiferente, como se fora uma manifestação da natureza e não uma interpelação política, a uma greve desconcertante.
Educadores do ensino básico paralisaram suas atividades para reivindicar o cumprimento de uma lei de 2008 que destina à categoria um piso salarial hoje equivalente a R$ 1.187 reais. 
Isso mesmo. O principal emissário da sociedade brasileiro junto à infância, dedicado 40 horas semanais a socializar algo como 50 milhões de meninos e meninas – já em idade escolar ou a caminho - recebe pouco mais de dois salários mínimos por mês. 
É o que vale um professor do nível básico no país que desponta como uma das potências do século XXI. 
A greve informou-nos que em 11 estados da federação nem isso ele vale. 
O salário do professor do ensino básico é uma responsabilidade de estados e prefeituras. Prefeitos e governadores alegam não dispor de recursos para arcar com o piso. 
O governo federal, através do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, Fundeb, criou uma linha de equivalência para esses casos. 
Seu montante remete a uma proporção fiscal ilustrativa: os recursos previstos, de R$ 1 bi, equivalem ao valor surrupiado à Receita Federal apenas por uma rede de sonegação desbaratada no mesmo dia da greve, envolvendo 300 empresas da área química.
Para acessar recursos complementares à folha dos professores, porém, há algumas condicionalidades. Entre elas, que as prefeituras destinem 25% do seu orçamento à educação e despesas afins. Algo que, de resto, o próprio governo federal não faz. 
Justiça seja feita, o orçamento do MEC triplicou no governo Lula. Saltou de R$ 17 bi para atuais R$ 69 bi, refletindo uma atenção à escola poucas vezes observada no país.
Foram criadas 16 novas universidades e dezenas de campi avançados. Cerca de 260 escolas técnicas dobraram a rede existente. Outras 208 unidades serão construídas agora no governo Dilma. Até 2014, os 500 municípios polo brasileiros terão pelo menos um centro educacional de formação técnica. Oito milhões de bolsas ampliarão essa capilaridade da educação profissionalizante, através do Pronatec. Uma espécie de Pronaf da educação técnica, esse programa de óbvia pertinência aguarda aprovação no Congresso há meses. 
São saltos importantes, aos quais cumpre acrescentar ainda o aumento de 21% dos recursos do Fundeb este ano, que inclui maior atenção às creches. Se abstrairmos a base de comparação e o Everest das carências nacionais seriam números quase irretocáveis. 
O que será feito de um país, e a velocidade com que isso se dará, depende porém das proporcionalidades que carências e demandas desfrutam no orçamento nacional. 
O orçamento federal de 2011 destina praticamente o dobro do que reserva à educação ao pagamento de juros aos rentistas da dívida pública brasileira: R$ 69 bi e R$ 117,9 bi, respectivamente. Cada vez que eleva a taxa de juro o governo está destinando uma fatia maior do orçamento –presente ou futuro - aos detentores de papéis da dívida pública.
Num país socialmente extremado, uma das sociedades mais desiguais do planeta, não há, efetivamente, dinheiro suficiente para tudo. Governar aqui, mais que em qualquer lugar, é priorizar. Mas as proporções citadas indicam que também significa arguir: estamos no caminho certo?
O Estado brasileiro tem como meta pagar ao professor de ensino básico um salário equivalente hoje a R$ 3 mil reais num prazo de dez anos. O prazo é compatível com a essencialidade da tarefa a ele atribuída? 
Arregimentará os melhores, os mais preparados, os mais eficientes para a missão? 
As evidências colhidas pelo próprio governo mostram que não.
Pesquisas citadas pelo Conselho Nacional de Secretários da Educação indicam que os melhores alunos da universidade hoje fogem da carreira do magistério. Motivo: a defasagem salarial da ordem de 40% comparativamente ao início de carreira em outras profissões com diploma superior. 
Um levantamento feito em 2008 pela Fundação Lemann, cotejando inscrições de vestibular e resultados alcançados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), concluiu que os 5% com as piores notas no Enem decidiram ser professores. 
Os melhores optaram por áreas médicas e de engenharia, melhor remuneradas.
Não por acaso, tem crescido no país o número de professores do ensino básico sem diploma superior. Eram 594 mil em 2007; saltaram para 636 mil em 2009. 
Através da Universidade Aberta do Brasil, o governo pretende formar 330 mil deles em cinco anos. Especialistas e sindicatos questionam a qualidade da formação à distância como é o caso dos cursos oferecidos pelas UAB. Mas o balanço dos presenciais também deixa muito a desejar. 
Hoje, 25% dos que abraçam o magistério estão sendo diplomados em cursos considerados ruins pelo próprio MEC.
A educação republicana, herança benigna da Revolução Francesa, é aquela que rompe a odiosa distinção de berço. Ao conceder um mesmo ponto de partida igual para todos — um ensino ‘público, gratuito e de qualidade’, como dizem os estudantes chilenos há 3 meses nas ruas por isso — secciona a transmissão da desigualdade. Impede que floresçam duas infâncias dentro de um mesmo país. Acordes da Marselhesa ao fundo. Ponto.
A ruptura da transmissão quase biológica da herança de berço – um dever da escola republicana - patina no país. Patina até na França, diga-se. Investigações baseadas no Enem indicam que a origem familiar continua a pesar decisivamente no desempenho escolar. Mais de um terço das 100 melhores notas registradas no Enem no Rio de Janeiro, por exemplo, foram obtidas por estudantes cujos pais tiveram formação superior. Em Brasília, esse número dobra: 76 de 100.
É um círculo perversamente vicioso. A baixa remuneração do professor desdobra-se em alunos com formação precária seminal que se arrastam daí em diante, da defasagem etária à desistência ou o déficit estrutural de formação. O conjunto subverte a finalidade republicana da educação, capturada assim como plataforma de reprodução da desigualdade que deveria combater.
O governo sabe disso. Deixou claro seu diagnóstico no novo Plano Nacional de Educação, o PNE. Entre 20 metas principais, ele destina 4 à valorização do professorado. Formação e remuneração, diz o documento, constitui a chave para o futuro da educação e do país.
O problema é a assimetria entre o diagnóstico e a destinação de recursos. Ela se explica pela força desproporcional dos interesses que tencionam essa relação. Para que as boas intenções do PNE sejam factíveis, o país teria que elevar o investimento em educação dos atuais 5% do PIB para 7%. 
O governo concorda. Mas planeja vencer essa travessia em dez anos. Uma década, a 0,2% de acréscimo real de investimento por ano. 
Trata-se de uma visão incremental muito à gosto dos mercados e de seus teóricos. Tudo se resolve gradualmente, sem a necessidade de rupturas na divisão da riqueza. Na vida real de uma nação a urgência tratada em regime de longo prazo muitas vezes é a escolha que leva ao destino oposto ao almejado.
Quanto custará socialmente esse roteiro de tartaruga resignada? Melhor: como modificar esse passo claudicante?

Professores: Uma greve esquecida - Por Saul Leblon, no sítio Carta Maior - PARTE 2

O Brasil dispõe hoje de uma incontrastável rede de controles financeiros e ideológicos, públicos e privados, nativos e forâneos, com braços que se articulam de dentro e de fora do governo, indo das universidades às consultorias de mercado, da prontidão midiática aos partidos políticos conservadores; esse redil articulado e eficiente trabalha sob pressão máxima para não deixar escapar um objetivo claro: garantir que anualmente se reserve algo como 3% do PIB em recursos fiscais ao pagamento de juros da dívida pública (cujo serviço efetivo atinge o dobro disso quando somados juros totais, capitalizações etc).
Assegurar o juro da dívida púbica é uma essencialidade do conservadorismo. Algo perseguido com o recrutamento dos melhores quadros, os mais contundentes instrumentos e todas as caixas de ressonância ideológica necessárias, das convictas às remuneradas. Os resultados, como se sabe, são notáveis: o Brasil é campeão mundial em custo financeiro; pratica as maiores taxas de juros do planeta e remunera religiosamente os títulos públicos com elas.
O tratamento incremental dispensado à educação , em contrapartida, sobretudo, aos salários do nível básico, reflete a aceitação de um interdito ideológico. O mesmo que faz algumas das economias mais ricas e poderosas da terra girar numa espiral descendente sem dispor de um ponto de apoio fiscal para sair da crise. 
O consenso conservador instituiu nas últimas décadas que os ricos – bancos e rentistas, sobretudo — não deveriam ser taxados adequadamente em seus lucros e patrimônio em benefício da sociedade. 
O dogma deixou aos Estados a opção de se tornarem mínimos em serviços e responsabilidades. Ou tomarem emprestada uma fatia da riqueza plutocrática, endividando-se a juros para proceder a investimentos e sustentar atribuições intransferíveis. Deixou-lhes também a partitura das privatizações e a do sucateamento que o Brasil dos anos 90 tocou e ouviu como aluno aplicado. 
A captura do orçamento público pela lógica rentista do endividamento esgotou-se após os excessos cometidos em seus próprios termos. Entre eles a explosão do crédito sem critério, propiciado pela desregulação precedente, e das fraudes de proporções ferroviárias.
O imenso passivo acumulado regurgita agora no metabolismo econômico mundial. Um bolo de difícil digestão. Sem afrontar o dogma fiscal que impede de taxar os ricos, sobrará aos pobres mastigá-lo e serem triturados por ele durante anos.
Se for esse o caminho vitorioso aqui e alhures, o salário dos professores do ensino básico dificilmente alcançará a faixa dos três mil reais em uma década. Talvez nem em duas.
Argumentos éticos ao som da Marselhesa tocam tangencialmente o raciocínio frio de quem lucra com o fervor colegial do Tea Party. Ou dos que, em nome do ‘custo Brasil’, extinguiram a CPMF subtraindo R$ 40 bilhões por ano à saúde pública. 
A esses talvez fosse mais pertinente lembrar que demonstrações explícitas de anomia social, como as registradas em Londres, não surgem do vazio. 
Um estudo de Unicef, de 2007, realizado exclusivamente com países considerados desenvolvidos, oferece uma pista e um alerta de como as coisas se dão. 
Intitulado "Pobreza Infantil em Perspectiva: visão de conjunto do bem-estar da criança nos países ricos", a pesquisa assume que a verdadeira medida de uma nação está na forma como ela cuida das suas crianças. A Unicef estende a fita métrica em seis dimensões da infância: a saúde e a proteção; a segurança material; a educação e socialização e o crucial modo como se sentem amadas, valorizadas e integradas na família e na sociedade onde nasceram. 
O trabalho avaliou 21 países ricos abrangendo mais de 40 itens de vida material e subjetiva agrupados nas seis dimensões citadas.
A Inglaterra figurou em último lugar no conjunto de notas de cinco das seis dimensões em toda a série. 
Trata-se de um balanço devastador da infância e da juventude criadas em 26 anos de governo conservador de Margareth Tatcher. Período em que se relegou a educação pública, as políticas sociais, empresas de Estado e valores associados à solidariedade e ao bem-comum a um agressivo moedor de carne de condenação ideológica e fiscal. 
Valioso justamente por anteceder em cinco anos os atuais distúrbios em Londres, o trabalho pode ser consultado na íntegra no site do Centro de Estudos Innocenti da UNICEF. 
Os alertas contidos no relatório merecem atenção não apenas de ingleses perplexos. Lideranças e autoridades brasileiras talvez encontrem ali boas razões para redimir sua indiferença diante da greve de abnegados professores de 11 Estados por um holerite de R$ 1.187 reais por mês.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Depoimento de uma professora: há 10 anos assistindo precariedade e arbitrariedade

Ontem, 09 de Agosto, foi publicada no Diário Oficial do Estado, resolução que contrata, em situação PRECÁRIA professores para atuarem na última série do Ensino Médio, sob o débil e demagógico argumento de que a greve está gerando “prejuízos irreparáveis e irreversíveis” aos alunos, devido à proximidade do exame do ENEM. Segundo a secretária de educação, o estudante precisa estar apto para o ENEM. Além disso, deixa claro que, não comparecendo à designação os profissionais habilitados (ou seja, que tenham feito curso de licenciatura exigido para o exercício desta função, conforme a LDB), qualquer pessoa “qualificada” (termo nada preciso), poderá assumir tais aulas, assumindo a responsabilidade de preparar nossos alunos para o referido exame que ocorre em Outubro. Pergunto: as aulas específicas de cada curso e especialmente as de didática e métodos de ensino são agora dispensáveis ao exercício do magistério?
            Tal ação POLÍTICA (coloco em maiúscula, dado a sua seriedade), suscita questões diversas, das quais, tenho certeza, somente conseguirei apontar algumas:
- A educação se resume ao ENEM?
- Os estudantes da rede estadual de educação têm tido possibilidade de acesso à educação de qualidade que lhes dê oportunidade de atingirem rendimento no exame do ENEM, garantindo-lhes acesso às Universidades Públicas?
- As aulas ministradas neste período terão os recursos que constantemente solicitamos em nossos planos de ações (PIP)? De repente brotarão laboratórios para as aulas de biologia, química e física, mapas históricos e geográficos atualizados, materiais didáticos complementares e tudo o mais que os órgãos responsáveis já devem ter verificado que solicitamos todos os anos?
- Lembrar-se-ão que não estamos tendo professores habilitados (às vezes até sem habilitação mesmo) de Física, Química e Matemática?
- Neste período serão investidos 25% da arrecadação do Estado na educação?
 São muitas questões....
A atitude da atual Secretária de Educação Ana Lúcia de Almeida Gazzola, juntamente com os Gerentes de Plantão aqui no estado de Minas Gerais, pode-se comparar à dos imperadores romanos em seu período de maior decadência. Jogam-nos à arena para nos digladiarmos. Estes “nós” a quem me refiro são os trabalhadores em educação, o povo, do qual fazemos parte e os estudantes, filhos deste mesmo povo. Isto revela o descaso e desrespeito com o povo que necessita (e tem direito) à educação de QUALIDADE e está em seu direito quando cobra uma solução para o impasse na greve. 
É, entretanto, um verdadeiro golpe, no mínimo sujo, a ação do governo. Primeiro, porque acha mais fácil provocar tamanha celeuma ao invés de cumprir uma lei nacional, em vigor desde Julho de 2008. É mesmo muito cinismo pautar-se na constituição para nos depreciar, quando não cumpre uma lei que nem ao menos chega aos pés do que deveria ser o salário mínimo constitucional (vide cálculos do DIEESE). É “golpe baixo” tentar romper com o direito de greve, aproveitando-se do fato de existirem tantas pessoas desempregadas que, com certeza acham que vale a pena trabalhar substituindo grevistas, por pura necessidade. São os “poderosos” colocando-nos para comermos o fígado um do outro, como se fossemos “urubus na carniça”. É a mais pura degradação da nossa sociedade, sob os olhos sádicos de quem a “governa”.
Como educadora apaixonada pelo que faço, não posso deixar de expressar a minha indignação com a, se me permite, professora Ana Lúcia Gazzola, tamanha a crueldade temperada a hipocrisia, de sua ação. Não me venham dizer para mudar de profissão. É esta que escolhi, a duras penas, como a maior parte dos meus colegas, consegui concluir a graduação, paguei por uma Especialização na Universidade FEDERAL de Minas Gerais e tenho tentado alimentar o sonho de fazer Mestrado (em Universidade Pública), simplesmente, pasmem, para ser melhor profissional na própria rede estadual. O que me move é que sei que não sou a única a pensar assim. É por isso que estamos em greve.
Por fim quero dizer que as greves dos Trabalhadores em Educação, por todo o país, significam um pedido (pedido, não, grito) de socorro pela educação no Brasil. Educação esta, sempre colocada como prioridade por todos os governos em seus discursos eleitoreiros que, se cumpridos estaríamos no paraíso. Inclusive, cadê o Governo Federal nesta história?
Faço, assim, um chamado a todos os Trabalhadores em Educação que ainda estão em sala de aula: A PARTIR DE HOJE VENHAM ENGROSSAR MAIS AINDA O MOVIMENTO GREVISTA. É DEGRADANTE ACEITAR O DESRESPEITO COM QUE OS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO PÚBLICA ESTÃO SENDO TRATADOS. O DITO “ESTADO DE DIREITO” É UMA FARSA!
Assinado: Liliane Morais - Professora
Integrante do MOCLATE (Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação)

Aos alunos com carinho

Aos "alunos" com carinho,

Todas as conquistas , ao longo da história, basearam-se nos sonhos, na luta e  resistência do povo. Sabemos que só há desenvolvimento social através da educação. Em 2010, iniciamos uma jornada pelo cumprimento da lei 11738/2008. Pactuamos com o governo diretrizes para implementação do acordo. Porém o mesmo descumpriu pontualmente os termos acordados.

Após longo processo de "conversação", pois não houve nenhum ponto negociado. Deflagrou-se a greve que já passa dos 60 dias parados. Queria que fosse diferente, mas socialmente somos invisíveis e mesmo com a greve assim permanecemos.

A vocês que me conhecem e já conviveram comigo, venho tornar público minha profunda tristeza e minha indignação. EU ACREDITO na igualdade de direitos, na justiça, no futuro , na educação e no cumprimento das leis sem distinção. Em MG escolhe-se qual lei cumprir, depende de quem será beneficiado.

Após 60 dias de greve, ao invés de cumprir a lei, o governo "soluciona" o   problema: cria uma resolução para substituir os professores do terceiro ano do ensino Médio em greve. E alega que os mesmos não poderão ser prejudicados no Enem. Sendo assim como peças serei  substituída. Não estou de férias e sim em GREVE. Mesmo assim permanecerei lutando. Gostaria de tudo fosse resolvido sem tantos transtornos e suspensão das aulas.

Durante esse período de luta já sofri agressões verbal, moral e física. Fui presa, caluniada, chacoteada e ameaçada. Falei em carro de som, na TV, na net. Apesar de tudo continuo confiante e persistente. Não quero formar escravos, não mais. Sonho com a educação libertária que educa o cidadão. Creio que a EDUCAÇÃO se faz pelo exemplo.
Caso algum dia seja lembrada, gostaria de ser lembrada pela persistência, pelo compromisso e afirmando que mudar a situação é difícil e possível. Procuro escrever a minha história, para que assim minha existência valha a pena, fazer a diferença. Finalizo   citando Monteiro Lobato" um país se faz a com homens e livros".  



Graziella da Costa Moreira Souza 
Curso superior com pós - graduação
Professora Estadual desde 1994.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

É preciso se indignar!

Num país marcado pelas desigualdades sociais é preciso se indignar quando observamos a realidade das escolas públicas, dos nossos alunos, dos nossos professores. Enfim, é preciso se indignar com o descaso do poder público com a educação.
Todos sabemos que uma educação de qualidade é o grande motor que possibilita o desenvolvimento de um país. O valor da educação pública está sempre presente nos discursos políticos, especialmente em tempos eleitorais. A despeito disso, o que os brasileiros assistem é um total descompromisso das autoridades com a escola pública. Projetos "inovadores" surgem aos mil, mas, quando serão lançadas as bases para uma escola pública de qualidade? Porque pensamos em tantos projetos mirabolantes quando o mais básico, o mais fundamental ainda não é feito?
Veja o exemplo dessa mãe. Joana D"arc, catadora de materiais recicláveis em Ipatinga - MG, emocionou pais e professores ao defender um futuro diferente para seus filhos. Seu desabafo mostra uma consciência cidadã e uma percepção da realidade invejável a muitos diplomados por aí. Joana não aceita que os professores em greve sejam chamados de vagabundos, assume o microfone e indaga: "de onde virá o juíz,o médico ou o advogado?"
A luta por uma escola pública de qualidade não pode ser apenas de profissionais do ensino, mas de toda a sociedade. Se a sociedade priorizar essa bandeira, o poder público não poderá ignorar. Escolas bem estruturadas e professores bem remunerados, resultam em um ambiente propício para aprendizagem e troca de saberes.
É preciso diferenciar, escola não é um depósito de crianças. Não bastar construir prédios e colocar as crianças dentro. É preciso dar estrutura, é preciso cuidar, é preciso educar.

Veja o vídeo:

domingo, 26 de junho de 2011

"Os problemas do Ensino Público" ( artigo do colunista Eduardo Aquino no Jornal Super Notícias - 26/06/2011)

Os problemas do ensino público

Escolas Públicas: se aumentarem os muros viram manicômios, se colocarem grades nas janelas tornam-se FEBEM. Ok há exceções, escolas modelos não é?! Raras, em extinção ou milagres de cooperação de comunidades mobilizadas e pequenas células que aqui e ali pronunciam alguns lampejos de luz no doentio ambiente das comunidades escolares.

Tensão constante, ambiente pesado, ar muitas vezes irrespirável, fora os gritos de professores com nervos a flor da pele frente a indiferença mesclada com a ditadura da má educação, desrespeito e atitudes ameaçadoras de alunos, vestidos, transvestidos, coalhados de brincos, piercings, tatuagens, roupas estranhas, sensuais...

Tribos de nazistas, sádicos, CDFs e nerds, passando por usuários de drogas, promíscuos, tímidos, vitimas de bullying, aos violentos, aos covardes e silenciosos que mesmo maioria vai se deixando marginalizar para sobreviver ao ambiente ameaçador. Professores acuados, temerosos de um enfrentamento com as "gangues", sendo minoria e tendo "apenas o poder de ser autoridade" em meio a "vampirinhos" sedentos de sangue novo, já que para "pré ou adolescentes propriamente ditos" um dos prazeres históricos é contestar e contrariar AUTORIDADE e odiar o mundo dos adultos (professores, pais e família em geral).

A ditadura do "NÃO TÔ AFIM", "AI QUE SACO" e gírias novas acompanhadas de emburramento, mau humor e impaciência de qualquer papo "careta" dos adultos (loucos para voltar pros games e internets)

Pais? Aonde andam? Separados, indiferentes, sem tempo, acuados?! Ausentes na formação de seus filhos, omissos ao estabelecer limites, puni-los, resgatar o comando, elogiar, investir tempo, paciência na tentativa de relacionar com os filhos, dar um colo, um ombro amigo. Mas, não há treinamento e investimento no ser humano.

Seja professor, aluno, pais, acreditem: a degradação do afeto, a anestesia dos sentimentos, a banalização da violência, das drogas, do sexo, a miopia progressiva dos que percebem que o PARAPEDAGÓGICO por não ter sido valorizado, dizimou a vida, a alma das Escolas Públicas.

Hoje somos zumbis, vagando sem rumo, movidos há obrigações e deveres: faz de conta que o aluno aprende, pai participa e professores têm prazer de reconhecimento no exercício da mais antiga e nobre atividade humana: Ensinar!! Luto pelo fim das paredes, pelo fim dos quadros negros e carteiras! Luto por uma educação onde se aprenda com alegria, onde a base do caráter humano se forme, num ambiente prazeroso, estimulante e atraente.

Meu projeto chama-se ECO GAME ESCOLAS e venho apresentando tal proposta para empresas de 3º, 1º e 2º setor (o publico, o privado e empresas dispostas a investir em responsabilidade sócio-ambiental). COMPORTAMENTO e seus distúrbios não podem ser mais uma responsabilidade de educadores!!!

Eduardo Aquino
Jornal Super Notícias. Belo Horizonte, 26 de junho 2011
http://www.otempo.com.br/supernoticia/colunas/?IdColunaEdicao=5051 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

FIM DA GREVE DOS PROFESSORES EM SERGIPE: PORQUE PARAR A LUTA?

Na última quinta-feira (16) findou-se a greve do magistério estadual em Sergipe. Em pouco mais de vinte dias paralisada a categoria mostrou na maior parte do tempo força e disposição para enfrentar o governo vermelho do PT, seus aliados e sua já conhecida retórica de “responsabilidade fiscal”. Contudo, no ápice da greve, a justiça sergipana decretou sua ilegalidade demonstrando a falta de independência entre os poderes que constitui o estado democrático de direito. Na greve anterior ocorreu um cenário semelhante, ou seja, movimento decretado ilegal pela justiça e professores recuando no ápice da luta.
Nesta greve, além de conseguir desafetos no Executivo estadual a categoria também contrariou o Parlamento e por incrível que pareça também contrariou a oposição. Hipocritamente nossos parlamentares discursaram contrariamente (e ofendidos) com o penúltimo protesto realizado pelos professores, muitos se recusando a receber novamente o SINTESE enquanto entidade representativa do magistério estadual. Para os senhores deputados, a atitude do sindicato foi desrespeitosa. Quantos protestos o SINTESE fez ao longo de sua história? Não há dúvidas de que a manifestação ocorreu de modo a expressar para a sociedade sergipana a insatisfação da categoria ante a falta de diálogo por parte da Assembleia Legislativa e, sobretudo, por parte do Executivo estadual.
Com que propriedade pode falar um Parlamento que sempre “diz sim” as proposituras do governo sem ao menos debater com a sociedade, sem ao menos ouvi-la? E quando ouve é sempre para demonstrar uma coisa que não acontece: O reconhecimento dos direitos das mais diversas categorias. 
A bem da verdade, alguns pontos não foram esclarecidos nem pelos deputados, nem pelo governo petista local. A Lei 11.738/2008 garante a Estados e Municípios a complementaridade do piso salarial sob algumas exigências. Por que o Estado de Sergipe não está apto a pedir essa complementação? Temos esse direito? Se não temos, qual a verdadeira situação das contas estaduais? Qual interesse em reter dados referentes a arrecadação tributária e a repasses? Não sabemos e por certo nunca saberemos.     
Voltando ao principal assunto deste post, é necessário perguntar: Porque parar a luta? Há exemplos de sindicatos que continuam seu movimento e não baixam a guarda diante da pressão exercida pelos três poderes. Como afirmou o companheiro Adriano Paula, o SINTESE deveria assumir o compromisso de lutar por mais alguns dias mesmo sob forte pressão, desta maneira, continuaria demonstrando a força que tem. 
E agora o que nos resta? Tentar obter mais uma vez na justiça (talvez sem sucesso) o reconhecimento de toda a nossa luta. Às vezes sinto falta da oposição...

Allisson Goes

Indiferença ou luta, fracasso ou conquista: uma reflexão sobre a profissão docente em MG

No dia 31 de maio de 2011 os trabalhadores em educação de Minas Gerais decidiram em assembleia iniciar uma greve pela imediata implementação da lei 11.738/08, a lei do Piso Salarial Nacional. Desde o dia 08/06 os educadores mineiros estão em greve e se mobilizando para pressionar o governo do estado a pagar o piso salarial nacional.
Nesse breve texto, gostaria de refletir um pouco sobre a situação do professorado mineiro. Mais do que discutir a situação dos profissionais do magistério,  nosso objetivo é também registrar algumas impressões sobre o papel dos professores nesse processo que temos denominado de sucateamento da profissão docente.
Os problemas da profissão docente são muitos, e vão desde a desvalorização salarial até mesmo o total descrédito da profissão no meio social , e porque não dizer, no meio acadêmico também. Se há alguns anos a figura da "professorinha" era uma figura de prestígio, de respeito e sinônimo de boa formação, hoje, quando muito, a palavra "professor" inspira pena, ou comentários do tipo: “tadinho”! As perguntas direcionadas aos docentes do ensino público municipal e estadual são: “Mas porque você escolheu isso?”; “Você é doido?”; “Como você aguenta?”; “Por quê não larga esta profissão?”, etc.
Não é segredo para ninguém o total desprestígio que vive o magistério e não é para menos. Poucas profissões são tão desvalorizadas quanto as ligadas às licenciaturas. Salários baixos, cobranças exorbitantes, avaliações de desempenho, altíssima carga de trabalho, adoecimento em função das atividades, são alguns fatores que fazem com que os professores sejam os profissionais menos invejados na sociedade brasileira. Não bastasse, há ainda o total desprezo das autoridades governamentais por esta classe, vista como numerosa e por isso dispendiosa, uma classe que reclama muito e oferece poucos resultados. Desta forma, recai, então, sobre os ombros dos docentes, apenas, a responsabilidade do sucesso e dos insucessos dos alunos das escolas públicas tão sucateadas pelo poder público.
Já é lugar comum entre profissionais da educação atribuir aos governantes o crescente desprestígio do educador na sociedade. Quando se trata de salário então, comumente, os profissionais do magistério atribuem exclusivamente aos governantes a falta de políticas salariais que de fato sejam condizentes com a importância do educador e da sua formação. De fato, nossos governantes pouco apreço têm pela educação. O professor então, é figura desprezível  aos olhos das autoridades. Terão aqueles que se insurgirão contra essa afirmação, dizendo que o professor é um profissional de grande relevância na sociedade e que, portanto, é descabido dizer que ele seja desprezado pelas autoridades governamentais. Todavia, trata-se apenas de um discurso. Nada disso é observado na prática interior à escola e na remuneração do magistério no Brasil. Um dos problemas do sistema educacional brasileiro é que ele privilegia a educação apenas nos discursos,  especialmente em período eleitoral. Porém não há este ou aquele governo que tenha tido a competência de efetivamente extrapolar o universo do discurso, das ideias e de fato, investido em ações concretas em educação e na carreira de quem a faz, o professor.
A importância do professor e da educação habita o universo das ideias e nada mais. Se não fosse assim, os professores não sofreriam com os baixos salários, com a violência nas escolas, com a precarização das condições de trabalho, etc. Essas são mazelas históricas da educação brasileira,  que não mudam de um dia para o outro, é fato. É preciso ações pontuais e radicais agora para que  a sociedade usufrua dos seus direitos  daqui a alguns anos. Mas para que haja essa mudança de médio  prazo, é necessário, como já dissemos, investimentos e ações no agora, sob pena de sacrificarmos professores e alunos das escolas públicas por mais algumas dezenas de anos.
Portanto, é acertado atribuir a culpa do caos educacional às autoridades governamentais. Todavia, faz-se necessário aos professores, olhar para si e para a seu próprio posicionamento diante de tamanha calamidade em que nós educadores nos encontramos. Cabe então perguntarmos: será que eu tenho contribuído? Para onde vai a minha contribuição? Essas são perguntas relevantes e que podem nos revelar, que a despeito da falta de responsabilidade dos governantes e do desrespeito como tratam os educadores, nós profissionais da educação, muitas vezes também somos responsáveis pelo estado de miséria em que nos encontramos. Também somos responsáveis por tamanho descrédito da nossa profissão. Afirmo isso baseando-me no fato de que temos falhado enquanto categoria. Isso porque sofremos cabisbaixos a todos os desmandos dos governos. Não questionamos junto à sociedade os projetos pedagógicos falidos impostos pelas secretarias de educação, resolvemos internamente todas as contradições da escola pública, e, como dizem por aí,"nos viramos nos trinta" para resolvermos a falta de livros na escola, a falta de material didático, de folhas, de xerox, enfim. Somos os heróis da escola pública. Mas, heróis para quê? Para quem e de quem? Enquanto estamos dentro de sala de aula sofrendo com todas a mazelas que já conhecemos no sistema público de ensino, vemos nossos salários e nossas carreiras sendo achatadas. Vemos a imposição de salas de aula lotadas,  e a já mal cuidada saúde dos profissionais do magistério se esvaindo. Mas estamos calados, estamos dentro de sala de aula esperando que da mesma forma que fazemos o papel de heróis e heroinas, apareça um grande herói para salvar a educação, para salvar os educadores deste grande "Leviatã" que se tornou a escola pública. Infelizmente, outros heróis não aparecerão.
Os heróis deverão ser os próprios professores que, deixando de lado seus interesses pessoais e  seus medos, precisarão se erguer desse lugar de julgo a que estão submetidos. Precisarão ter mais coragem do que a necessária para enfrentar a hostil sala de aula. Deverão extrapolar os muros da escola, fechando-as se necessário. Indo para rua e mostrando a toda sociedade o seu valor. O desafio é fazer-se  respeitado, fazer-se valorizado. Se há descaso, esse é consentido. Muitos estão na rua lutando e exigindo seu valor, mas há também os covardes e arredios que preferem se fechar na sala de aula, fingindo uma satisfação que já não há. Desfrutam de conquistas que não têm seu nome e se recusam a conquistar quando a luta já está travada.
É preciso, portanto, que os heróis das salas de aula o sejam de fato, fora delas.
Por: Adriano José de Paula

sábado, 18 de junho de 2011

A realidade dos professores na mídia: reproduzimos abaixo a matéria do G1 sobre a condição caótica dos salários dos professores

Professores fazem até jornada tripla para aumentar renda

Jornadas de 30, 40 e até 60 horas semanais, três empregos, pouco tempo para ver os filhos, a família. Sorteio para pagar as contas do mês. Empréstimos, bicos, jornada tripla. E salários baixos. Esta é a rotina de grande parte dos professores da rede pública de ensino no país, muitos deles pós-graduados.
"Não consigo dar conta de pagar minhas contas mensais", diz a professora Maria Patrícia Almeida Santos Costa, de 38 anos, que leciona no ensino fundamental da escola estadual Professor José Baptista Castellões, na Zona Sul da capital paulista. Ela faz um sorteio todo mês para decidir o que deixar em dia. “Esse mês nós vamos pagar o seguro do carro. Já sabemos que o telefone e o condomínio nós não vamos conseguir."
Tempo para o lazer não é uma possibilidade, segundo ela, com um salário de R$ 1.213. "Há muito tempo eu não viajo. No cinema eu ainda vou, porque eu e o meu filho temos desconto. Às vezes vamos a algum parque público", diz ela. “Eu já tirei uma carteira de trabalho nova e estou procurando trabalho desde abril. Sou casada com um funcionário público e nossa renda é baixa.”
Sem tempo para os filhos
No Distrito Federal, a jornada de Jucimeire Barbosa, de 45 anos, chega a 60 horas por semana. Dá aulas de artes para o ensino fundamental pela manhã, trabalha à tarde, três vezes por semana, na coordenação da escola e leciona na turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) à noite. Mal sobra tempo para os três filhos. "Muitas vezes meu filho de 6 anos espera eu chegar às 23h para ajudá-lo nos deveres", conta ela, sobre o ritmo de trabalho que mantém há 14 anos. Jucimeire já chegou a trabalhar em três escolas de duas regiões diferentes – e fazia todo o percurso de ônibus. Mas a renda líquida média não passa de R$ 3,9 mil por mês, o que a impede de investir na carreira. "A gente se forma, trabalha e quer chegar a um ambiente organizado, com tranquilidade. Aí passa por dificuldades, sobra pouco tempo de cuidar de si mesmo, de seu espaço. É bem difícil mesmo."

Professor faz jornada tripla para ser advogado
Em Mato Grosso do Sul, o professor Leossandro Carlos Adamiski, de 28 anos, já fez jornada tripla para trabalhar e agora faz para estudar. Ele trabalha 36 horas por semana em duas escolas dando aulas de filosofia. À noite, cursa Direito."Dou aula de manhã e a tarde. No período da noite estou fazendo outra faculdade. Temos que estar preparados para o mercado. Afinal a profissão de professor não está tão fácil", conta o professor.Ele afirma que é impossível pagar as contas dando aulas em apenas uma escola. “Já cheguei a dar aulas nos três turnos para complementar a renda. Não tem como sobreviver dando aula em apenas uma escola, o salário é muito pouco. Juntei dinheiro para comprar meu carro porque eu tinha que ficar indo de uma escola para outra e gastava quase uma hora no ônibus".
Adamiski diz que o trabalho acaba preenchendo parte dos dias de folga. "Além das aulas, temos que levar para a casa as provas e trabalhos para corrigir. Temos que fazer diários, relatórios e planejamentos de aulas", afirma.
Em Videira (SC), o professor Ravel Ribeiro, de 27 anos, se divide entre quatro escolas, de manhã, à tarde e à noite. No total, são 50 horas/aula, que rendem um salário líquido de R$ 1.980. A mulher está grávida, e o casal tem outro filho de dois anos, com quem Ravel só tem as noites de segunda e terça.
Ele faz parte da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores da Rede Estadual de Ensino do estado, onde os professores estão em greve desde o dia 18 de maio. Pós-graduado e estudante de mestrado, ele dá aulas de matemática e química para cerca de 450 alunos. “Meu objetivo com o mestrado é dar aula numa escola particular ou numa universidade”, diz.
Marcelo Santana enfrenta uma tripla jornada nasredes municipal, estadual e ainda dá aulas em umcolégio particular na Ilha do Governador, subúrbiodo Rio (Foto: Patrícia Kappen/G1)

'Correr de lá para cá'
Marcelo Santana enfrenta uma tripla jornada nas redes municipal, estadual e ainda dá aulas num colégio particular na Ilha do Governador, subúrbio do Rio. Mora com a filha de 19 anos e os pais, de quem precisa de ajuda financeira. Pela rede estadual, recebe cerca de R$ 940 e, pela municipal, R$ 1.337. Na particular, são R$ 350. “A minha filha faz pré-vestibular comunitário porque não dá para eu pagar um pré-vestibular top de linha”, reclama. “Houve um tempo em que eu dava 60 aulas por semana, mas estou cansado. Diminuí para 40 aulas.” Hoje, são 32 horas semanais no município, mais 16 horas no estado e outras quatro horas semanais na rede particular. “A gente trabalha com uma realidade complicada, de vários tipos de alunos. Você não pode fazer um trabalho com mais afinco porque você tem que correr de lá para cá”, diz.

'É pura vocação', diz professor pós-graduado
O casal de professores Luiz Henrique Rodrigues, de 50 anos, e Clécia Lúcia de Lacerda, de 37 anos, que trabalha na escola estadual Martins Pena, na Zona Sul de São Paulo, faz jornada dupla para conseguir manter o orçamento doméstico. Com descontos e abonos, o professor, que é pós-graduado em história e tem ainda dois cursos de especialização, recebeu, em abril, R$ 1.617, por 40 horas semanais. "É pura vocação", afirma ele sobre a profissão.
Clécia, professora de português, cumpre 30 horas de trabalho na rede pública estadual e mais uma jornada de 40 horas na rede municipal. "Não pode pensar no salário na hora que vai para a sala de aula", diz ela, que ganha um salário de R$ 1.552, fruto de um aumento recente pelo bom desempenho na avaliação de mérito. "Acho que meus alunos precisam de mim. Eu faço a diferença na sala de aula. Eu tenho esse retorno deles.”
A pedagoga Karina Sousa, com duas pós-graduações no currículo e cursando a segunda graduação, recebe um salário bruto de R$ 1.700 para trabalhar 40 horas por semana, também em Videira (SC). Casada e com um filho, ela tenta economizar indo a pé para uma das escolas em que trabalha. Na volta, conta com a carona dos colegas. Para dar conta dos cursos de qualificação, Karina chegou a vender roupas informalmente, a fazer empréstimos e a dar aulas de reforço em casa. “Nos primeiros anos, eu não tinha acesso à internet e computador em casa. Para a última pós-graduação, tive que negociar as parcelas em atraso para passar pela banca de conclusão de curso. Para pagar a outra, fiz um empréstimo de R$ 2,4 mil”, conta. Ela trabalha há cinco anos na rede estadual como professora ACT, que tem contrato por ano letivo. Em janeiro e fevereiro, quando as escolas estão em férias, Karina fica sem trabalho e sem renda. Ela diz pensar em se mudar de estado e ir para o Distrito Federal, onde o salário é melhor, ou até em mudar de país.

Quase metade do salário com combustível
Em Mato Grosso, a professora Letícia Aquino da Silva, de 27 anos, chega a gastar quase metade do salário em combustível para se deslocar a uma cidade onde dá aulas. Ela é professora de educação física em duas escolas das redes estadual e municipal.
Como funcionária do estado ela trabalha em um colégio que fica em outro município, no período noturno. Todos os dias ela se desloca de Cuiabá para a cidade de Rosário Oeste, a 133 quilômetros da capital. A professora usa o próprio carro para viajar até o serviço. “Vou com o meu carro porque de ônibus o horário não daria certo. Talvez fosse até mais barato ir de ônibus, mas não dá”, explica Letícia. Para percorrer a distância entre a casa e o trabalho, Letícia afirma que gasta quase a metade dos R$ 1.873,02 que recebe como professora com combustível. Ela sai de casa às 17h e chega ao município às 19h. A aula termina às 22h. O retorno é feito no mesmo dia, e só por volta da meia-noite é que ela consegue chegar em casa. E a partir das 7h do dia seguinte, tem que estar dentro da sala de aula na escola em que também trabalha, em Cuiabá, na rede municipal. “Esse mês eu gastei R$ 700 com combustível porque o preço diminuiu. Mas no mês passado eu cheguei a gastar mil reais”, conta. Pela maratona profissional de três turnos, a educadora ganha R$ 2.652. No contracheque dela, o valor pago pelas 21 aulas no estado é de R$ 567,04. Com as gratificações, o salário vai para R$ 1.252,54.
Rotina de bicos
A rotina não é diferente em Minas Gerais. A professora Alessandra Andrade de Souza Said, de 37 anos, que dá aulas há 11 na rede estadual de educação, em Belo Horizonte, diz que há colegas que vendem roupas, bijuterias e cosméticos para completar a renda. Ela trabalha uma média de 12 horas diárias para conseguir manter as contas em dia. Casada e mãe de uma menina de 12 anos, a professora diz que ajuda o marido nas despesas de casa e que não tem nada extra. “Acho que, se fosse o caso, eu poderia cortar a TV a cabo porque a internet eu preciso para trabalhar e a minha filha para estudar, pesquisar. Ainda bem que eu não pago aluguel. Já pensou se pagasse?”, questiona.Na escola Martins Pena, a professora de física e matemática Luciany Shirley Lúcia da Silva, de 45 anos, dá aulas há 19 anos, mas não é efetiva. A jornada de 40 horas semanais rende um salário líquido de R$ 1.600, porém, o desconto de um empréstimo consignado faz com que a remuneração não seja suficiente para arcar com as despesas. "Pago R$ 500 de aluguel e R$ 150 de transporte. Se precisar ir ao dentista ou comprar medicamentos, preciso contar com os meus trabalhos extras. Se não, jogo no cartão para pagar no mês seguinte", conta.
Para a professora Alessandra Said, além da desvalorização salarial, há a desvalorização humana. “Professor e nada é a mesma coisa.”
*com textos de Alex Araújo (MG), Iara Vilela (MT), Letícia Macedo (SP), Marcelo Parreira 9DF), Maria Angélica Oliveira (SP), Patrícia Kappen (RJ) e Tatiane Queiroz(MS)

domingo, 12 de junho de 2011

A Polêmica do “Kit Gay” e os Processos Identitários na Escola: para além do respeito às diferenças - PARTE 2

Prosseguindo a breve discussão iniciada no post anterior, sob o mesmo título, - leia aqui - quero me deter às questões que fazem referência ao campo educacional, mas que ultrapassaram seus limites. Uma primeira proposição foca nas opiniões que permeiam o debate. Identificamos duas posições bem claras e definidas quanto à questão; é claro que corremos o risco de generalizarmos, todavia a proposta é esclarecer quaisquer dúvidas acerca do que será colocado aqui. A primeira posição é dos grupos religiosos – católicos e evangélicos principalmente – que “demonizam” o “kit gay” e seus defensores. Usando de argumentos bíblicos evocam a “família tradicional” como base da sociedade e o risco que traria a introdução deste material na escola. Alegam que o kit incentiva, induz, instiga e outros sinônimos, a comportamentos homossexuais. A segunda posição é defendida pelos grupos que advogam os direitos dos homossexuais que, fazendo referência, ao direito à diversidade e outras garantias constitucionais, acreditam que a utilização do material irá contribuir para a diminuição dos preconceitos e da discriminação às crianças e adolescentes que manifestam comportamentos homossexuais. Qual destes grupos está correto? Qual proposta defender? Antes de responder a estas questões vamos finalizar nossas proposições. Nossa segunda proposição se concentra em como a mesa do debate se apresenta e como estas duas posições se enfrentam. Parece que os grupos religiosos enxergam a figura do homossexual como uma aberração e/ou desvio da natureza, passível de conserto e do outro lado os grupos em defesa dos homossexuais retratam os religiosos como homofóbicos, preconceituosos e antiquados. Não se trata aqui de querer uma simples posição de consenso, porém, é preciso apontar que as duas posições erram em andar pelas veredas do extremismo. Talvez o debate não avance porque temos figuras como Jair Bolsonaro que “está se lixando para o movimento gay”; homens como Marco Feliciano que se utiliza das Escrituras para extrair (quero acreditar que com muito esforço) uma pauta anti-homossexual “abominando suas práticas promiscuas”. Temos ainda, parlamentares como Jean Wyllys, ex-estrela BBB, que propõe o “casamento gay” numa sociedade como a nossa. Defende o PL 122 e se declara abertamente contrário aos cristãos. Tais figuras dificultam o amplo debate, não contribuindo, portanto, para que tais questões avancem efetivamente. Em terceiro lugar, cito mais uma vez o conflito tão mencionado pelo grande sociólogo judeu-alemão Georg Simmel. Para Simmel, o conflito é necessário nos processos de socialização e para que a sociedade continue a existir. Não se trata de guerras ou conflitos armados, mas dos conflitos diários e cotidianos construídos nas relações. Simmel prefigura uma valorização do conflito, embora não trate exatamente de processos identitários. Como mencionei anteriormente, penso que o conflito é necessário, porém é preciso entender sua natureza. 
Assim, encerrando esta discussão, tentaremos “responder” as perguntas colocadas acima. Qual destes grupos está correto? Nenhum! Quando cada grupo evoca sua identidade (na busca de recursos), também evoca seus símbolos e referências, distintos entre os grupos. Qual proposta defender? As duas! Por serem distintas cada uma tem suas particularidades e é óbvio que tratam a questão de forma diferente. O ponto chave, é como o grupo faz a defesa de sua identidade ou de suas proposições. Como disse, não sou a favor de extremismos, o discurso pode ter muita importância no processo de busca de soluções, não dos conflitos, porque eles sempre existirão. Tenho medo das ditaduras sejam elas gay ou cristã. Me aflige pensar em um Brasil só de católicos, só de evangélicos, e por que não, um Brasil só de gays.  

Allisson Goes 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O artigo que reproduzimos abaixo, é de autoria do padre Geraldo Magela e foi publicado na sua coluna no jornal o tempo do dia 03/06/2011.

Os desarranjos do ensino brasileiro
As redes sociais ampliaram e o Faustão repercutiu para o país o pronunciamento da professorinha potiguar na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Em sete minutos, Amanda Gurgel resumiu o drama das professoras do ensino básico brasileiro. Espero que seja um empurrão definitivo para que a educação assuma um posto prioritário na agenda do governo.

Por mais de oito anos, fiz desse tema meu único bordão na imprensa mineira. Os leitores da cidade e do campo andaram colecionando artigos. Renderam-me um livro.

Não volto à imprensa para repetir a mesma batalha, mas a Amanda me abre oportunidade para uma reflexão mais abrangente, agora dando um voo rasante sobre o conjunto do nosso ensino.
Nossos ordenamentos jurídicos sobre a educação não duram dez anos sem modificações e são atropelados em todas as instâncias por uma prática que muitas vezes os ignora. As responsabilidades não são bem definidas e nem sempre o que está na Constituição e na Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional é plenamente praticado.

O ensino básico é de responsabilidade do município. Mas a maior parte das escolas está com os Estados. O ensino médio é de responsabilidade dos Estados, mas é também praticado pela União em colégios de aplicação e escolas técnicas. O município não pode entrar no ensino superior, mas tem muita prefeitura por aí abrindo faculdades, através do artifício das fundações.

O recrutamento de professores deve ser realizado por concurso público, mas, em muitos lugares, há mais professores contratados do que concursados. A direção das escolas deve ser por escolha da comunidade, a tal gestão democrática do ensino, mas, nas prefeituras e em alguns Estados, são cargos de confiança do prefeito ou do governador e acabam virando patrimônio da família ou de indicações partidárias. Os professores do ensino básico receberam um castigo, que foi o piso salarial de R$ 930 para 40 horas semanais, mas muitos ganham isso por 30 horas semanais.

A quem compete o ensino infantil? O Estado tem escolinhas, o município tem escolinhas e também a União tenta lançar uma rede de creches. Finalmente, as políticas e os conteúdos para a educação são fixados pelo Conselho Nacional de Educação e pelos conselhos estaduais, mas muitas vezes o próprio MEC se intromete na área e quase sempre embola o meio de campo, como na atual polêmica sobre o escrever correto. Um livro patrocinado pelo MEC procura legitimar a linguagem caipira, como caminho para se chegar à linguagem culta. Vamos, portanto, aprender a falar e escrever certo a partir de erros de linguagem e concordância.

É possível que o ministro Haddad tenha prestado algum serviço à educação brasileira, mas o conjunto de sua obra tem como referência principal as confusões do Enem, que, no ano passado, ofereceu um espetáculo de desorganização que pôs à prova os nervos de nossos jovens e a paciência ilimitada de suas famílias.
Reitor do Centro Universitário UNA reitoria@una.br
Disponível em:http://ht.ly/59yg1 acesso em: 03/06/2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A Polêmica do “Kit Gay” e os Processos Identitários na Escola: para além do respeito às diferenças - PARTE 1

Depois de ler e ouvir diversos comentários sobre o chamado “kit gay” pensado e elaborado pelo Ministério da Educação (MEC) decidi debruçar-me sobre o fato-objeto que provocou muito alvoroço e incômodo nestas últimas semanas. É claro que a questão não pode e nem deve ser esgotada em algumas linhas, mas quero contribuir no sentido de esclarecer alguns pontos fundamentais suscitados durante os calorosos debates.
Em meu imaginário há uma marcação pejorativa no termo “kit gay” que, creio eu, foi nomeado pela imprensa de forma geral. Ao ser nomeado de tal forma o material que será ou não distribuído pelo MEC já chega à “mesa” do debate com uma carga preconceituosa o que dificulta ainda mais o entendimento do que se pretende fazer com o material e o ponto onde se quer chegar. Não esqueçamos que a linguagem, mesmo vazando como afirma Tomaz Tadeu Silva (2006), é um sistema que marca oposições binárias entre o que é e o que não é, nesse caso entre o “gay” e o “não-gay”. Não é o fato de denominar somente, mas como esse processo ocorre.
Para mim, o conflito deve existir. Ele é real, necessário e evidente. No ambiente escolar as construções identitárias seguem a mesma lógica das outras. A identidade emerge a partir do conflito e nas percepções das diferenças. “Identidade e diferença são, pois, inseparáveis (WOODWARD, 2006)”. O discurso multicultural no contexto escolar só amarga o processo educacional e sua declaração de fé do respeito às diferenças na escola e da convivência pacífica entre os diferentes esconde algo tão importante quanto à diferença: O próprio conflito. Pensar numa retórica de construção das identidades no ambiente escolar sem conflito é como fechar os olhos para um mar de diferenças que emerge neste processo.
É preciso pensar para além da convivência pacífica, dos discursos homogeneizantes e porque não do respeito as diferenças na escola? As questões que devem estar no cerne são a hierarquização das identidades no conflito, privilégios e benefícios para determinadas identidades e subjugação para outras. Quanto vale ser católico, negro, ribeirinho ou gay? O que vale mais? Todos são processos de identificação que estão em conflito.
Entender as nomeações, os conflitos e acima de tudo as posições identitárias no contexto escolar é um bom começo para aprofundar o debate sobre a inserção ou não de materiais que dizem respeito a “costumes”, termo usado pela presidenta Dilma. 
 Allisson Goes


Referências
WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA,
Tomaz Tadeu da (Org). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2006
SILVA, Tomaz Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. SILVA, Tomaz Tadeu da (Org). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2006

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Por uma educação pública de qualidade, pela valorização do professor!!!

Desde o início do ano de 2011, os professores de MG estão em processo de negociação com o Governo de Minas pela implantação do PISO SALARIAL NACIONAL. Infelizmente essa não é uma luta exclusiva de MG, em todo Brasil, professores de vários estados estão se mobilizando na luta  por salários mais dignos e melhores condições de trabalho.

O texto que publicamos abaixo, é uma contribuição enviada pelo professor Allisson Gomes da rede estadual de Sergipe.



O SENTIDO DA GREVE DOS PROFESSORES EM SERGIPE
Allisson Gomes dos Santos Goes

Assistindo o repercutido desabafo da professora Amanda Gurgel em um site de mídias sociais pus-me a pensar sobre a educação e o sentido da atual greve dos professores no estado de Sergipe. Num primeiro momento pode parecer que temos sobre a mesa duas cartas oposta ou duas situações diferentes. Falo isto por que o governo petista sergipano acaba de publicizar suas novas ações e investimentos em todo o estado, incluindo a área da educação. Esta nova veiculação midiática traz tudo “muito limpo e cheiroso”, o que não é bem a realidade vivida pelos profissionais da educação.
A primeira colocação a ser feita é que o salário base de três dígitos trazido pela professora não fica muito aquém do salário base de quatro dígitos recebido pelos professores em Sergipe. Aqui também existem professores que trabalham dois turnos (o que chamamos de DE – Dedicação Exclusiva) ou até três quando combinado com outros estabelecimentos de ensino ou outras áreas profissionais. Nossos professores também fazem isso para sobreviver e para além, para tentar cultivar alguma – talvez mínima – esperança de ter uma aposentadoria digna no “fim” de sua carreira quando já estão cansados e doentes. A revisão do PISO SALARIAL é um ato respaldado por legislação federal e que o governador Marcelo Déda deveria acatar sem mais delongas.
A proposta lançada pelo grupo que tem o Estado nas mãos é dividir a categoria e de alguma forma acabar com a greve. Como o próprio SINTESE coloca, não temos subcategorias e sim uma única categoria que deve permanecer forte até o fim. Vejo que é o momento de o sindicato mostrar, já que, em cinco anos de governo petista (que o próprio sindicato apoiou de maneira não oficial) poucas promessas foram cumpridas.
Uma segunda colocação e que diz respeito a estas promessas não cumpridas é a GESTÃO DEMOCRÁTICA. É de se admirar que ao fim de CINCO ANOS de governo o Partido dos Trabalhadores em Sergipe não tenha concluído o estudo sobre a implantação da gestão democrática nas escolas públicas estaduais. Lembramo-nos que esta é uma promessa da primeira eleição concorrida pelo então candidato Déda e que pretendia acabar com o loteamento das escolas a partir dos cargos de direção, o que deteriora ainda mais a imagem do processo educacional. Não se pode deixar de colocar que o mesmo partido que criticava entrou na lógica do loteamento de cargos políticos e agora se vê numa “sinuca de bico”: Abro ou não abro mão das benesses dos cargos de indicação política?
Por fim, e utilizando o velho Pierre Bourdieu, o campo político também possui suas regras, capitais, bens em disputas e estratégias. No nosso caso, que não é tão específico, há uma coisa peculiar: Estamos disputando contra nós mesmos, ou seja, contra quem nós elegemos, contra quem saiu das “nossas bases”, contra quem parecia ter “a nossa cara”.  
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